Primeiras aventuras:
0.1-A preparação para o Caminho de Santiago de Compostela.
Ainda não tinha começado nada, já estava tudo pré-determinado ao sucesso. As fórmulas para o sucesso foram três: 1- Não ter expectativas. 2- Ter saído uma relação”complexa” e por isso estar a precisar de refrescar a vida. 3- Ter a mente aberta.
A mochila que me iria manter vivo foi preparada com 1 hora de antecedência da partida. Espantosamente não ficou nada de muito importante para trás. E ainda bem que assim foi, quanto mais tempo se tem para preparar uma mochila, mais coisas desnecessárias vão. E garanto nunca esquecer o que acabei de escrever.
“Vamos para o Alentejo conhecer sítios novos, surfar, fazer uns caminhos romanos e dormir numas praias desertas durante 10 dias? – Olha estava a apetecer-me era ir fazer o Caminho de Santiago. Vamos?. – Ok, bora.” A decisão desta viagem demorou estas exactas 2 frases… O resto da viagem não foi diferente. A irresponsabilidade desta decisão deixa-me, só por si, contente.
È difícil explicar o que são 128km a pé sem saber: para onde vai ser a próxima curva, quanto tempo de caminho há pela frente, se chegaríamos ao fim, que pessoas iriamos conhecer, e principalmente sem saber a dificuldade a que nos propúnhamos. Falo por mim e pelo João, porque a menina Inês é repetente, mas apesar de ser a segunda vez, conseguiu esquecer a dureza da vez anterior. (Questiono-me vezes sem conta como é possível esquecer que 128km são duros????? Como é possível? como?) A Inês esqueceu(!) Se eu fosse o presidente da junta dava-lhe o prémio Nobel do esquecimento mais insignificante do mundo(!)
1- A caminhada.
Desde o inicio até ao momento em que apanhamos o autocarro de volta para Tui, não fazíamos literalmente ideia do que nos esperava (note-se que escrevo por mim e pelo João, a Inês para alem de já ter feito o mesmo percurso , apaixonou-se por um Chinês logo no primeiro albergue e enquanto eu e o João desfrutávamos do percurso ela só pensava no Chinês, por isso a maneira de encarar a caminhada foi bastante diferente entre nós).
Estacionamos o carro em Tui, fomos buscar a uma “credencial de peregrino” e éramos oficialmente peregrinos. Para fazer a caminhada de Santiago é necessário uma credencial que não é mais do que uma caderneta de 0.50cent, que foi carimbada em cada albergue que pernoitamos, servindo como prova que efectivamente ali estivemos e ao mesmo tempo impedindo que dormíssemos 2 noites do mesmo albergue. O delírio dos escuteiros era coleccionar carimbos… Por cada albergue apenas pagamos 3€, com direito a caminha com lençóis descartáveis, banho, cozinha caso quiséssemos cozinhar. Convém sair antes das 9 da manhã.
Apesar de ser a primeira vez que fazíamos uma caminhada deste género, rapidamente entramos no espírito. Toda a gente se cumprimentava. Conhecer pessoas (caminhantes) nunca foi tão simples. Estava á distância de simples perguntas como: São de onde? Começaram onde? Há quantos dias caminham? E o mais interessante é que toda a gente tinha vontade de conversar/conhecer outras pessoas. Conhecemos, espanhóis, portugueses, italianos e claro o Chinês… da Inês… Como dá para reparar, até rima.
Encarei esta viagem como uma espécie de meditação, quer se queira, quer não, estamos em contacto connosco próprios, apesar de haver muita gente para conversar há imensos momentos e até horas em que a única coisa que ouvimos é o som da natureza e do ritmo do passo. Li e confirmei que a andar é o único momento em que o espírito anda ao mesmo tempo que o corpo.
2-A dormida.
A estratégia era deitar cedinho e sair por volta das 5e30(uns dias mais cedo, outros mais tarde…) pois não podíamos arriscar caminhar com calor, ao sair tão cedo sabíamos que tínhamos grandes probabilidades de ter vaga no próximo albergue. Nunca tinha acordado tão cedo durante tanto dias especialmente nas férias. E… Soube tão bem… sei que soa a maricas, mas ouvir os passarinhos, ver coelhos, aves e disfrutar da calma da manhã é muito bom, não sei muito bem explicar porquê nem estou muito preocupado, foi bom e ponto.
Os albergues e os quartos eram muito bons, mesmo até para quem não tinha expectativa alguma. Situados em sítios giros, geralmente com alguma vista sobre a área. Aqui novamente foi uma experiência diferente, toda a gente dorme em beliches. Apercebi-me que o ressonar é uma coisa realmente incomodante, e percebi o porquê de pessoas que se separam do companheiro(a) que ressona. Nestes sítios hà que desligar um botão cá dentro e dormir independentemente do tipo de barulho que haja a nossa volta, se bem que a maior parte das pessoas era muito cuidadosa e preocupava-se com o outro. O ranger das camas era uma constante, fosse o tipo de ranger da pessoa normal que se vira para o lado, fosse o tipo de ranger das pessoas tipo João(que há muitas) em que não percebi bem se se viram ou estão a capotar num acidente de carro, ou se em vez de dar meia volta, davam sempre uma volta e meia… E depois havia claro o tipo de ranger da cama da Inês e do Chinês… Malandros…
3- A comida.
Aqui só me lembro de um anúncio que passava à alguns anos na tv em que sempre que era a vez do homem da casa cozinhar, havia batido de atúm para toda a gente. O orçamento para o verão era extremamente limitado para a quantidade de coisas que planeamos fazer, e desse para onde desse tinha de dar(e deu…) Sendo assim tivemos de nos manter bem alimentados ao menor custo possível. O menu foi á base de: 70% sandes de atum mayonese e milho, e 30% de pão, chouriço e massas e fruta….
Comer bem deixou de ser uma prioridade dando vez á máxima: alimentar-muito-para-não-perder-peso.
Depois da experiênca dá-se muito mais valor ás comidas “normais” a partir daqui saboreei a comida se uma maneira completamente diferente.
4- As relações.
Independentemente da maneira como se encara um desafio este género, é bom saber que vamos conhecer muito melhor as pessoas com quem vamos fazer a caminhada. Esta viagem foi muito enriquecedora neste aspecto, dá sem dúvida, para conhecer as pessoas no limite e os seus defeitos e virtudes. Houveram momentos de muita risada, momentos de desabafo e momentos em que a paciência faltou, como é normal, conheci alguns defeitos e virtudes do João e da Inês e dei-me a conhecer. A conclusão que cheguei? È que todos temos defeitos e virtudes e que se toda a gente tivesse os nossos defeitos e virtudes o mundo era muuuito melhor. Não estou a ser modesto, escrevo o que me vai na alma, às vezes exageramos em determinadas alturas da vida, às vezes temos de ter calma e engolir uns sapos, mas faz parte, respeito e confiança são a base de qualquer relação. Não podemos mudar os outros, só nos pedemos mudar/moldar nós próprios. E quando nos damos com pessoas realmente desinteressantes é que damos valor que andamos rodeados de pessoas que teem muito valor, e que aquela coisinha que nos incomodou não é nada…
A maior revelação foi a Inês e o seu lado pinga-amor para com o Chinês, é que o raio da miúda não se calava com o tamanho do órgão sexual do oriental… e como não era peludo… como comia bem arroz com os pauzinhos… e mais sei lá o quê…
4- A viagem de volta.
A chegada a Santiago e a viagem de autocarro de volta a Tui/Moledo para mim foi um momento de reflexão quase tão grande como a caminhada em si. Deu para rever valores, rever objectivos, surgiram algumas respostas a alguns nós que tinha dado na vida, tinha a alma limpinha como poucas vezes esteve. Já tinha lido que o cansaço fisico, o contacto com a natureza, com a terra fazia maravilhas. E confirma-se.
Nunca imaginei que a Inês de apaixonasse tanto… não aguentou e viajou até á china 2 meses onde se encontra no momento com o seu amado e foram tirar um curso de alquimia sexual taoista juntos. Boa sorte Inêzinhaaaa!!! De certeza que vens com uma experiência de vida diferente e espero que possas confirmar que tudo o que escrevi aqui sobre ti é verdade.

ai que saudades do meu chinês!!!!!!! baaaahhhhh
grande aventura, não foi?
para quando a próxima?
Por: Inês em Novembro 12, 2009
às 2:48 pm