Publicado por: guerreiropacifico | Setembro 14, 2009

Jony-Be-Good.

Data: 3.Set.2009

Local de escrita: Ferragudo.

Hora: 11:53

Não está aqui ninguém. 17 hectares de parque de campismo, tanto sol, o céu azulão.

As praias quase sem ninguém. Que desperdício.

O algarve está vestido com menos 80/90% das pessoas do que é habitual para a minha mente de veraniante. Tanto sol que ficou por apanhar por tanta gente..

É aqui que entra a minha personagem.

Esta personagem que já passou aqui 15dias decidiu ficar uma semana sozinha…Sente que o mundo é todo seu. Sente que pode fazer tudo o que lhe apetecer. Entre ler, escrever, ir á praia(normalmente praias desertas apenas com acesso por barco ou escalando 20minutos uma falésia com a ajuda de uma corda da idade dos piratas as Caraíbas), não fazer nada, fazer tudo ao mesmo tempo, etc etc…

Vou chamar a esta personagem Jonny-Be-Good.

Para Jony-Be-Good não há limites, ele sai à noite, pela primeira vez foi a um bar e uma discoteca sozinho, dorme sozinho, vai fazer kitesurf sozinho, ai espatifa-se todo sozinho e não tem ninguém para partilhar a dor, as mazelas e……. as conquistas.

De repente a sua vida começa a ficar miserável. Ele começa a desfalecer de tédio, não se faz nada, os pequenos almoços são solitários, e ainda pioram se imaginar o que poderia estar a fazer, mas não faz.

Espera lá, será este o Jony-Be-Good? Peço desculpa mas enganei-me a escrever sobre a personagem e comecei a escrever sobre o típico português que só se queixa, só imagina os outros a terem uma vida melhor, e só esperam que algo lhes aconteça sem ter de fazer nada, e, entretanto queixa-se…

Jony-Be-Good tem um sub-consciente muito forte e ainda por cima viu o filme “O Segredo”, na realidade quase não teve tempo nenhum sozinho.

Jony-Be-Good tem uma actividade que o faz feliz (várias na verdade), ele defende que todos os humanos deviam ter uma actividade que os faça sentir bem, se essa actividade oferecer a oportunidade de conhecer pessoas MUITO melhor, quando morrermos temos tempo para deixar de socializar :)

No primeiro dia os Deuses enviaram vento, e sempre que isso acontece Jony fica radiante e começa aos pulos.

Logo se apressou a ir comprar o almoço e jantar. Pediu para levar, poupando assim precioso tempo, não porque tenha falta dele, mas porque quer muito aproveita-lo.

Prato do dia? Pernil de Porco daqueles com muita cebola.

Chega á praia e depara-se com os últimos 2km de acesso fechados por blocos de betão, uma corrente e um sinal de trânsito proibido. Sorte das sortes tinha a bicicleta da prima no carro. Senta-se calmamente na mala do carro e degluta calmamente (quer dizer, não tão calmamente) o belo pernil enquanto aprecia a beleza do sitio e principalmente a magia do Algarve. Jony-Be-Good estava no Alvor. Entretanto divertia-se também a ver os carros dos estrangeiros a fazerem travagens a fundo quase a esborracharem-se contra o betão, pois o acesso tinha sido cortado à apenas 2 dias, e o pessoal todo excitado para ir fazer kite vinha lançado…

Entre muitos aparece um carro de aluguer de matricula espanhola com 3 pessoas que com certeza não eram espanholas. Como todos os outros param o carro a 2 palmos da corrente e/ou do betão, saem, olham para o sinal de trânsito proibido e dão uma coçadela no rabo ou na cabeça (não sei porquê mas isto aconteceu literalmente com todos os que ali pararam, talvez porque estivessem a conduzir à muito tempo para ali chegar) e, ou decidem estacionar e ir a pé os 2km com o material ás costa, ou ir embora.

Dirigem-se na direcção de Jony e seu pernil de porco…Spekavam in inglish. Por causa do kitesurf, conversar está á distância das mais simples perguntas como: Que tamanho se asa se costuma utilizar aqui? ou se as condições estão boas? entre mil outras. 15minutos depois já estávamos na risada a ver os outros a coçar o rabo e a contar aventuras das diferentes viagens que tínhamos feito. Era a segunda vez deles no Alvor, sendo que a primeira tinha sido à 2 dias, vieram de Tarifa (600km daqui e é considerada a capital mundial do vento…) chegaram cá, mas não havia vento… voltaram 600km para trás. Chegados a Tarifa também não havia vento por lá, foram á net, viram as previsões para cá, ia haver vento, então voltaram novamente 2 dias depois…

Entretanto acabou o pernil, Jony-Be-Good pôs a tralha ás costas, montou-se na bicicleta da prima(!) e combinou treinar junto dos dinamarqueses. Pelo caminho passa por uma mala de kite e uma prancha que caminhavam sozinhos pelo acesso, ao olhar melhor repara que há uma pequena rapariguinha de 13/14anos lá por baixo a caminhar. Jony é sentimental e teve pena. Prontamente se ofereceu para ajudar. A rapariguinha de seu nome Joana agradeceu 5 vezes seguidas:) Conversa puxa conversa e ela confessa que os pais não sabem que ela está ali, tinha dito que ia ter com uma amiga, mas na verdade ia fazer kite. Jony sentiu o mesmo que o homem aranha sente nos desenhos animados quando pressente o perigo, as cores invertem, o mundo torna-se escuro e um som assustador acontece no seu ouvido interno. Jony pressentiu uma sangue-suga que se ia colar toda a tarde para ajudar em tudo e mais alguma coisa…Ao fazer a simples pergunta de despiste: “Á quanto tempo fazes kite? “ Hà 3 meses” responde a pequena. As suspeitas do alarme do homem aranha confirmavam-se, precisava de um plano de fuga, pois não queria ser baby sister nessa tarde. Surgiu a pergunta: “Em que lado da ria vais entrar?”  “Ahh logo no inicio…” “Eish.. que azar… combinei ir treinar para o outro lado com uns amigos, mas não te preocupes,  ajudo-te até chegar á primeira zona” Escapulindo-se assim das garras da pequena… Jony-Be-Good no que toca a ajudar pessoas no kitesurf já teve mais do que a sua dose e estava mais que no momento de pensar em si. Sorte das sortes ao chegar ao spot a pequena encontra o irmão que por acaso estava de barco e era o dono de uma escola de kitesurf. Ao ver a miúda dá-lhe um ralhete daqueles……..  foi ai que Jony saiu de cena.

A tarde foi fantástica, os 3 Dinamarqueses e Jony estavam mais ou menos no mesmo nível. No kitesurf existem infinitas manobras, umas mais complexas outras mais simples, é uma questão de experimentar e cair. Obviamente escolhemos as manobras mais simples e que dessem mais show off. A coisa funcionava da seguinte maneira: Um lembrava-se de uma manobra para os outros 3 fazerem. Fazia-se o jogo da tesoura papel e pedra e quem perdesse ia primeiro. Os espetanços foram tantos e tão épicos que pela primeira vez Jony chorou a rir no mar :) .Resultado da brincadeira: 3 manobras novas aterradas com sucesso para os dois lados,  ou seja 6 manobras no total.

Algumas horas depois e para alem de o corpo não aguentar mais, foi necessário parar e guardar energias para os dias que se seguiam.

Estava Jony-Be-Good a arrumar o material no fim do dia, já o sol se punha, quando sente 2 loiras com os seus 28/29 anos, cheias de material de kite a aproximarem-se. Olha pelo canto do olho e repara que vêem na sua direcção… Jony-Menino-Be-Good pensa: “Nahh não vêem ter comigo, isto não está a acontecer…”, e não é que vêem mesmo… “Hello! Do you speak English?” “Ohh Yess” (era o que me apetecia ter respondido eheheheh)  Novamente, conversa de kite para começar. E afinal apenas uma fazia kitesurf , dali a 10 minutos o tema já ia bem longe. Novamente viagens, sítios, experiências etc etc. Eram alemãs estavam ali para fazer kitesurf e conhecer o sul de Portugal. Não conheciam nada de Portugal, rigorosamente nada, uma delas a Julia trabalha numa agência de viagens, e tinha ganho a viagem para 2 pessoas, não sabiam nada acerca da cultura, basicamente nada. Foi ai que Jony-Be-Good entrou em cena. Maren, a que fazia kitesurf queria muito entrar na ria, mas as condições eram realmente perigosas apesar dos seus 2 anos de kite, e Jony aconselhou-a a não entrar, ela assim o fez, amanhã iriam estar boas condições novamente e mais valia jogar pelo seguro… Entretanto estava tudo combinado para amanhã, quando surge o convite para um bar… Típico, lá teve de ser.

Jony-Be-Good primeiro tinha em mente ir sair com os dinamarqueses,  a reviravolta das circunstâncias foi tal que as prioridades mudaram. Jony tentou perceber o que elas gostavam e escolheu um spot a rigor. Conversaram até tarde e más horas, e no dia seguinte foram fazer kite.

Ao voltar para a roulote estavam muitas perguntas na cabeça de Jony-Be-Good . “Como será possível algumas pessoas considerarem a vida uma seca?”; “Como é possível algumas pessoas não viajarem?” .

Isto foi o relato do primeiro dia alone.

Jony sentia-se plenamente feliz com as suas escolhas de vida, ok está de férias, sem nunca esquecer a responsabilidade da realidade. Entretanto como férias são férias, Jony resume em palavras: Muito Kitesurf; Muitas quedas; Jantres; Almoços; Praias; Novas culturas, durante estes dias viajou por todo o Algarve de Sagres a Tavira, mostrou novos sítios aos Dinamarqueses e às Alemãs. Jony experimentou a sensação de não conhecer ninguém, e ninguém o conhecer, não ter de dar satisfações a ninguém, chegar a casa(roulote) à hora que quisesse, saia à hora que quisesse, gerir o tempo sozinho, gerir as refeições sozinho, gerir tudo sozinho, foi uma muito boa experiência. De manhã ia á praia sozinho e disfrutava da calmaria, á tarde practicava kitesurf e á noite ia a algum bar, entre muuuuuitas outras coisas….

Cada é alvo incessante das suas escolhas.

Há coisas que nunca se esquecem….

Walking alone


Respostas

  1. Jony-Be-Good… jantei em frente ao mac a ler o teu post… ri-me, imaginei, viagei… gostei!


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