Publicado por: guerreiropacifico | Novembro 30, 2009

Lição de vida.

AVISO: A história que se segue é LONGA forte e talvez demasiado real.

No dia 11 de Maio de 2006, a minha vida tomou um novo rumo. Tive um acidente grave de bicicleta em que fui de cabeça para uma nova fase da vida. Rasguei o lábio inferior em que levei 30 pontos, 3 dentes partidos, mandíbula deslocada, hemorragia cerebral, 2 costelas partidas, uma vértebra deslocada por causa da qual fui considerado paraplégico, tacicula do rádio partida, escafóide partido, e a cereja no topo foi uma contusão Hepática(rasgo no Figado) de 3cm, e um corte no Baço de 2cm. Apesar deste aparato todo e como se nota que 3 anos depois decidi escrever sobre isto, faço um balanço de toda esta nova experiência e alegra-me que esta história tenha muito mais de romantismo do que de traumatizante:).

Cada um tem o seu caminho, cada um tem a sua maneira de crescer na vida, este foi um episódio que me fez crescer como pessoa e principalmente me fez rever os valores para um estado mais consciente do meu percurso no futuro, e que me fez mudar o rumo da vida.

A parte que foi realmente dura, passou por traumas mais psicológicos do que físicos, espantosamente não tive muitas dores tendo em conta o aparato da coisa.

Devido à hemorragia cerebral, o meu corpo entrou em estado de coma. Nunca fui grande adepto de ficção cientifica, mas a realidade é que durante este processo aconteceu pelo menos uma coisa que a ciência não consegue dar explicação, e por isso comecei a acreditar em algo mais do que o plano racional. Sei que existe algo superior ao pequeno humano, há quem lhe chame Deus, há quem lhe chame outras coisas. Para mim ficou assim mesmo, algo superior.

Lembro-me de abrir os olhos muito sonolento, e sentir uma luz tipo as de cozinha que me encadeou ao ponto de quase não ver nada, pois estava a um metro da minha cara, passado algum tempo a minha visão habituou-se, e a primeira coisa que me salta à vista é um ecran com um electrocardiograma em andamento. A primeira coisa que me ocorreu foi: “Já vi isto nos filmes”, de repente o som que oiço estava demasiado alto e chegava a ferir o ouvido, pessoas a falar, agitação/passos (pessoas a andar de um lado para o outro), rodinhas no chão (de macas ou cadeiras de rodas), recordo-me também de umas enfermeiras virem na minha direcção e dizerem: “Vasco acorda, tens estado sempre a dormir, tens de passar mais tempo acordado, tens de ser forte.”

Por alguma razão puseram-me um tubo gástrico, o que me impedia de falar, para alem disso sentia a cara muito inchada, tinha também um colar cervical e umas talas nas costelas que me impediam de mover fosse o que fosse, mexer os olhinhos era o melhor que se arranjava… De repente senti-me assustado, comecei a juntar as peças, estava a acordar num hospital, com uma luz daquelas que se vêem nos filmes dos blocos operatórios, tinha muitos autocolantes com fios colados no meu peito. Estes iam dar a uma máquina que tinha as batidas do meu coração e fazia píííí´………píííí………..pííí´……….. Estava confuso. Mas ao juntar aquilo tudo, ao que as enfermeiras tinha dito, apercebi-me, que corria perigo de vida. O pensamento foi sem por nem tirar: “Foda-se não volto a fechar os olhos, tenho de me manter acordado, não quero voltar a dormir!”. A verdade é que passei 3 dias nisto, num estado de sonolência leve, via o que se passava á minha volta, ouvia com uma sensibilidade que até feria o ouvido e ouvia até o que não queria ouvir. Mas ninguém reparava em mim. Duas médicas, conversavam sobre as dificuldades em pagar a casa, e queixavam-se sem parar, aquilo enervou-me de uma maneira inexplicável. O tempo passava, mas ao mesmo tempo, não tinha noção do tempo. Via tudo á minha volta e continuavam sem reparar em mim. Era como se eu soubesse que estaa ali, mas para os outros estava a dormir. Queria falar, mas não conseguia. Comecei a perceber que estava ali á demasiado tempo.

– A raiva.

Neste ponto comecei a sentir raiva, nervos, comecei a exaltar-me. Aquelas duas pessoas que me podiam ajudar apenas estavam preocupadas com a casa que tinham de pagar, eu ali a lutar verdadeiramente desconfortável pela vida. Sinto nervos como se fosse hoje.

Naquele estado de sonolência, sonhei, ou vi o médico a falar com a minha mãe e irmã, em que ele lhes dizia que provavelmente iria ter de ser operado á mandíbula pois estava muito para trás… Apenas me lembro disto, mas foi tão real…

Recordo-me de tempos a tempos irem equipas médicas inteiras com os seus estagiários visitar todos os que estavam no S.O. Lembro-me de querer falar, mas ninguém reparava em mim, apesar de me olharem nos olhos. Que sentimento estranho, o de vegetal. Até a minha mãe me vinha visitar, mas não conseguia falar com ela, a primeira vez que me viu, aproximou-se a uns escassos metros começou a chorar descontroladamente e retirou-se. Não sei se isto aconteceu uma ou duas vezes…

- Back to reality…

A certa altura o desconforto físico apareceu, as dores por estar sempre na mesma posição, a porcaria do tubo que ia da boca até ao estomag… comecei a ficar rabugento. Finalmente consigo interagir com as enfermeiras. Finalmente viram-me com os olhos abertos e fui recebido com um sorriso. Gosto tanto de sorrisos honestos :) . Disseram-me coisas que não percebi por estar a ouvir demasiado bem. Foi uma sensação estranha…

Nesta altura aconteceram 2 dos episódios muito traumatizantes. Estava no S.O. (cuidados intensivos), estive lá 5 dias, 3 a “dormir” e 2 com dores… Devia ser época alta, pois estava cheio de gente, penso que ordenados por ordem de gravidade. No meu lado estavam os bravos dos politraumatizados, mais lá para o fundo estavam os betinhos envenenados, com traumatismos bebés, e em risco de vida, mas apenas por um trauma… Acontece que por esta razão e por o S.O. estar a abarrotar haviam 2 doentes/traumatizados/espatifados/mortos-vivos ou sei já o que, por cada ala onde supostamente era o espaço de uma pessoa.

Basicamente as camas/macas estavam lado a lado. Indo directamente ao assunto, morreram 2 pessoas a menos de um metro de mim. Uma senhora, e um rapaz… Quantas pessoas já passaram por esta experiência? A realidade é bem diferente dos filmes. È o que chamo levianamente, estar no sitio errado à hora errada. A senhora penso que foi por que ingeriu alguma coisa que não devia. O rapaz, do que conseguia ver pelo canto do olho e pela visão periférica tinha um ferro grosso atravessado no pescoço de entrou por trás e saiu pela frente, e ali estava o rapaz com o ferro laranja de tanta ferrugem que tinha. Nos 2 casos aconteceu uma coisa semelhante. De vez em quando olhava para o lado numa de perceber se tinham havido alterações. A minha noção de tempo devido ao acidente e devido a tanta medicação para as dores estava completamente incerta. Não sei dizer com precisão quanto tempo isto durou, se houve um intervalo entre estes episódios. Lembro-me de algumas coisas, e outras simplesmente são incógnitas.

Alguém reparava no barulho das máquinas e (aqui tal como nos filmes) o píííííííííí´constante era razão para por várias pessoas a correr, uns fechavam as cortinas para haver um mínimo de privacidade. Privacidade QB, pois para mim não houve nada. Estava ali a 50cm da acção e do morto. Fuck… Sempre tive um bocado de relutância em contar esta parte da história, porque de todos os relatos de pessoas que assistiram (na vida REAL) a pessoas a morrer ao lado ficaram bastante traumatizadas, e algumas ficaram mesmo com esses traumas para a vida. Comigo, felizmente ultrapassei esta fase. Não foi de um dia para o outro, mas sou uma pessoa normal. Na altura tive 4 meses a sonhar com mortos todos os dias. Vinham-me á cabeça todos os promenores daqueles episódios, as conversas entre médicos, o stress, e especialmente a frase de um médico ”Venham rápido ele morreu” baixo o suficiente ara pouca gente ouvir, mas totalmente audível e claro para mim no meu lugar cativo para o espectáculo. Lembro-me de pensar imediatamente: “Não morreu nada, ainda agora estava a olhar para ele!!!” Ai pronto fiz merda. Olhei e foi uma visão dura a 50cm…. Isto mais ou menos vezes duas pessoas. Bah… No Coments…

Voltando a mim, aqui aconteceu novamente outro pondo de viragem. Apercebi-me que efectivamente podia ser o próximo, a mente humana é uma coisa impressionante. Se já estava decidido em viver depois destes episódios tive a certeza que não ia vacilar. Sempre que conseguia não só abria os olhos como os esbugalhava (porque assim na minha cabeça tinha menos probabilidades de os fechar…).

O tempo passava, o desconforto continuava, a agitação também, nunca tinha noção das hora porque experimentei pela primeira vez não haver um ciclo e 12h de luz e 12h de escuridão durante dias… Isto foi mais um factor forte. O desconforto desta situação é indescritível.

Tenho mudado bastante ao longo do tempo, e tive isto guardado para mim durante este tempo, não quero vangloriar-me de ter sobrevivido a isto, apesar de estar orgulhoso em mim mesmo por ter lidado com a situação da maneira que lidei. Confesso que ás vezes me enervo quando oiço pessoas queixarem-se da sua vida por merdas estúpidas. Sinto que estou tão superior a elas neste aspecto! Por saber o que é um verdadeiro problema, apetece-me gritar-lhes esta história.

-Depois do desabafo voltado à história.-

A certa altura comecei a aperceber-me que estive sempre numa maca, e não numa cama. Rápidamente realizei que era por 2 razões, uma é que estava tudo tão cheio que não havia mais camas disponíveis (aqui lembro-me de muita gente gritar e enrraivecer-se por estarem mal e ainda por cima n terem todas as condições, no meu caso queria lá saber, desde que saísse dali), a outra era porque estava tão partido e imobilizado que ninguém me podia mexer, fosse por causa da vértebra deslocada fosse por causa das costelas partidas…

Achava engraçado era que entre o dormir e o acordar acordava a sentir-me mais limpo, quer dizer, nem sei se era bem mais limpo, pelo menos mais cheiroso era….

Até que o ­­mistério foi resolvido. Davam-me banho enquanto dormia!!! Ah pois é, lei do menor esforço in-the-house. Imaginem que vão para a cama e o corpo auto-lava-se, ou para alguma mente mais criativa que alguma deusa o lava durante a noite ehehehe. A história era gira se me conseguisse mexer.

A partir deste ponto senti vários sentimentos maus, raiva, nervos, impotência face ás circunstancias, dúvidas, inseguranças, medo, e a pior de todas. Ser um vegetal totalmente dependente dos outros. Aqui novamente houve outro ponto de mudança. Estava ali 100% dependente dos outros e duas perguntas vieram á minha cabeça, que para alem de raiva foram capaz de me tirar o sono. Essas perguntas foram: “Porque é que não morri? Porque é que me safei?” Lembro-me como se fosse hoje, até suei com tal inquietação e nervos…. Não consegui perceber porquê mas exaltei-me muito….

Enquanto isto tudo se passava na minha mente, passado algum tempo a minha mãe aparece. Nitidamente emocionada e a controlar-se para não chorar compulsivamente aproxima-se e sorriJ Diz algumas palavras de amor que não me recordo e agarra-me a mão. Pergunta-me se tinha dores, disse que não, pus a melhor postura e atitude que consegui de maneira a tranquiliza-la o máximo. Pergunto-lhe se ia ser operado à mandíbula. Ela sai do S.O. a chorar e até hoje nunca mais falamos sobre isso. Foi tão claro para mim tê-la visto à porta do S.O. de braços cruzados a chorar mais a minha irmã, e o médico a dizer-lhes que provavelmente ia ser operado à mandíbula… Penso que não fui muito claro no que quis dizer, mas o que aconteceu, é que essa conversa do médico com a minha mãe aconteceu no 2º dia de que estive em estado de coma. A minha visão foi clara, a audição perfeita como se a conversa tivesse sido comigo. Já me questionei como é que isto foi possível, como é que eu estando a dormir vi aquilo e ouvi tudo com tanta clareza. Até aqui não acreditava nestas coisas, mas uns meses depois de recuperar li um livro com experiências de quase-morte em que referia lá que é comum a alma ou espírito (sei lá…) sair do corpo e passear ali á volta… Repito que nunca acreditei nestas coisas do além, e que até esse livro que apesar de muito plausível me pareceu muito “enfeitado” nos relatos, porque a realidade por que passei foi bem diferente

O tempo passou-se e entretanto sai do S.O. e fui movido para a cirurgia 2, que foi a minha casa durante umas belas semana.

Ainda não referi, mas por causa da vértebra deslocada deixei de sentir as pernas… não as mexia, foi estranho a cabeça enviar o comando para as mexer, ou mexer os dedos, ter essa percepção mas simplesmente não haver reacção delas. Para ajudar à festa o meu braço direito estava obviamente todo engessado, e o esquerdo resolveu não reagir, estava ali tipo peso morto, e os médicos por mais exames que fizessem não descobriram o porquê. A um das hipóteses tinha a ver com uma pequena hemorragia cerebral…

(Ao contar isto assim parece uma história totalmente trágica… Conto-a tal e qual como se passou na minha mente… Isto foi mesmo muito forte. Estive só comigo e com a minha mente durante 6 meses, apenas via o tecto e as pessoas que se punham quase em frente á minha cara. Na brincadeira gosto de dizer que após ter passado por esta experiência só tinha 2 hipóteses, ou ficava maluquinho porque o único hobby que tinha era enfrentar a poderosa mente, ou me tornava um génio. Que confesso que foi esta última que aconteceu. Quem me conhece sabe que sou um génio:) Pelo menos em encontrar estratégias para ser felizJ Ahhhh e humilde também…ehehehe)

Imaginem a sensação de acordar de banhinho tomado sem perceber nem sem se lembrarem de como aconteceu…. Com o tempo já apanhava as enfermeiras a darem-me banho… Que experiência. Foi provavelmente a experiência que mais me marcou. A minha sobrevivência dependia 100% dos outros.

A lufada de ar fresco veio de onde menos esperava, veio de um colega de quarto a quem iam ser amputados os pés e com quem tive longas noites de conversa. Ele tinha 70anos e apesar do seu aspecto rígido tipo general, a falar comigo parecia um cachorrinho dócil. Ele chamou-me a atenção que tinha mais de 20 visitas por dia todos os dias que lá estive, disse que se notava o quão gostavam de mim, e que tinha andado a fazer as coisas certas “lá fora”, pois ele nunca teve uma única visita. Foi mais um episódio tocante…

Estava cansado, dorido, exausto e a minha mente continuava a pregar-me partidas, parecia que ainda queria arranjar mais problemas… Sofri também de um sentimento de culpa pelo arrependimento do que não tinha feito e que poderia ter feito…. Foi um sentimento estranho. Sentia que tinha tido uma oportunidade, e tinha andado distraído com coisas pouco importantes. Bahhh… que impotência que sentia em relação á vida. Agora queria ser mais pró-activo em relação à vida e ao futuro, fosse ele como fosse.

- A maior e mais importante lição desta experiência surgiu aqui, neste preciso momento.

À noite surgiu outra pergunta:

- “O que já fiz pelos outros??”

Novamente veio o sofrimento! Novamente a mente fez das suas….Apercebi-me que estava ali dependente dos outros 100%, fazia xixi, cocó na cama, lavavam-me, até para me ajudar na cama tinha de chamar alguém… estava dependente do soro nas primeiras 3 semanas, mais tarde das papinhas de passarinho me “alimentavam”… E encontrava-me numa fase da vida em que naturalmente me questionava acerca do que faço aqui…

O sofrimento por vezes ensina-nos grandes lições, e, no meu processo pessoal. Aqui foi O ponto de viragem. Estas perguntas que tinham incomodado o mais íntimo do meu ser. De um momento para o outro foram a solução e a certeza para a dúvida que tinha vindo a ter. De repente tudo ficou claro como água.

“Porque não continuei a dormir para sempre?”, “O que já fiz pelos outros?”

Uma pergunta foi a resposta da outra: E o romantismo desta história atinge aqui o seu pico máximo.

A resposta surgiu simples vinda da mesma mente que tinha criado os problemas: Estou aqui para ajudar os outros!

Apercebi-me que este é o mais alto propósito da humanidade. Juntamente com a procriação.

Foi preciso ter-me espatifado todo para aprender esta lição, uma coisa é certa. Hoje esta é uma das certezas que tenho na vida, e que tenho sempre presente quando faço algo, quer seja no plano profissional, quer no plano pessoal. A verdadeira sabedoria aprende-se a viver, o conhecimento aprende-se nos livros. E combinar-mos os dois podemos ajudar os outros e ser felizes. E para ser feliz é preciso fazermos coisas satisfatórias, ter relações satisfatórias. Viver é totalmente diferente de sobreviver. E se puder transmitir esta mensagem a todos os que lerem este texto e se ficar algo desta história, fico muito contente.

Aconselho vivamente o visionamento do filme: Peacefull Warrior. È tão interessante estar atento ás pequenas mensagens que a vida nos proporciona…às vezes as respostas para questões que temos, vêem de onde menos esperamos. Este filme surgiu no mês 5 da minha recuperação. E até hoje foi o filme que mais me marcou. A história da personagem e o seu processo de vida é assustadoramente igual à minha longa história que acabei de contar. E dai o nome deste blog.

Thanks for reading.


Respostas

  1. Thanks for writing!
    E Obrigada por seres assim!

  2. Tenho pena de não ter sido uma dessas 20 visitas diárias que tinhas… Muita pena mesmo… No entanto gostei de ler o texto que mostra que aproveitaste esta situação tão difícil para cresceres e aprenderes ainda mais. Não me surpreende vindo de ti :)

    Um grande abraço,
    Tiago

  3. …nem sei o que dizer…:)


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